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Doutrinas..

doutrina x teoria

Doutrinas e Teorias

Doutrina é um conjunto de princípios que servem de base a um sistema. Ainda que existam semelhanças notáveis entre doutrina filosófica e teoria, diferenças sutis, porém importantes, são também evidentes principalmente quando nos referimos às teorias científicas. Sem dúvida, e neste caso, a diferença essencial reside no fato das teorias científicas apoiarem-se no método científico e, consequentemente, na experimentação. Não obstante, por trás dessa argumentação algorítmica, aspectos importantes e relativos tanto às semelhanças quanto às diferenças, acabam por ficar apenas subentendidos e, via de regra, ignorados.

Alguns, dentre os princípios componentes das doutrinas filosóficas milenares, acabaram transmutando-se em afirmações que foram se adaptando à ciência, à medida em que esta foi se firmando como tal. Direi então que estes princípios, enquanto no âmbito da filosofia, podem ser chamados pelos cientistas como hipóteses metafísicas. Já no âmbito da ciência, modificados ou não, estes princípios podem assumir o caráter de hipóteses científicas e, neste caso, entrar ou não na constituição de teorias científicas.

É importante que o cientista saiba, dentre estas hipóteses ou conjecturas que está valorizando, quais efetivamente estão assumindo o caráter de hipóteses científicas (provisórias ou definitivas) a comporem os núcleos das teorias que estuda. Diremos então que uma hipótese será tanto mais científica quanto mais sujeitar-se à experimentação, seja através de testes diretos, seja através de testes às teorias a que a hipótese dá suporte. Existem ainda as hipóteses implícitas, ou assumidas como tais, e deixadas de lado, seja devido ao seu caráter por demais óbvio, seja pela conveniência em deixá-las num segundo plano.

 

Einstein, por exemplo, primou por desenvolver teorias com pouquíssimas hipóteses em seu núcleo, elegância esta raramente imitada, pois que não é fácil separar o essencial do supérfluo, do óbvio ou do redundante. Não obstante, e com frequência, estas hipóteses secundárias ganham importância ao reforçarem determinadas argumentações. Nunca é demais enfatizar o elevado teor metafísico comportado por grande número dessas hipóteses auxiliares. Conquanto a boa ciência seja aquela que conseguiu despreender-se do caráter doutrinário, o bom cientista é aquele que sabe dar o devido valor à filosofia e sabe localizar-se em meio às inúmeras doutrinas filosóficas existentes.

A boa teoria nem sempre é aquela a respeitar os paradigmas vigentes. Pelo contrário, boas teorias são aquelas dotadas de um certo caráter revolucionário a contestar "verdades" até então aceitas como tais. Estas supostas verdades comumente saltam aos olhos do leitor desavisado como que a retratar uma suposta inconsistência da nova teoria. Nada impede que o bom teorizador, ao prever este comportamento crítico prematuro de seus leitores, teça inicialmente algum comentário sobre estas possíveis incompatibilidades entre a sua teoria e hipóteses outras a sustentarem teorias consagradas. Por outro lado, não há porque se preocupar em transformar negativas destas hipóteses em hipóteses assessórias a comporem o núcleo da teoria.

 

Aliás, seria este um erro de natureza lógica. Às vezes a incompatibilidade mostra-se evidente não como ponto de partida mas como consequência natural no desenvolvimento da teoria. Tanto neste caso quanto no primeiro, quaisquer considerações a respeito deverão ser expressas no momento e local oportuno (considerações introdutórias, esclarecimentos intermediários ou discussão final). O importante, de qualquer forma, é que o teorizador conheça as hipóteses presentes em outras teorias e relacionadas a sua teoria, sejam elas compatíveis ou não; mesmo porque poderá aparecer um crítico imprudente a apoiar suas argumentações não nas falhas da teoria em si mas em premissas estranhas e não utilizadas pela teoria criticada.

 

Não é impossível que a hipótese negada e/ou depreciada esteja inclusa entre os "dogmas de fé" aceitos pelo crítico e a denunciarem sua ingenuidade. Seria equivalente a combater uma teoria científica pelo fato dela ir contra uma doutrina aceita "a priori" como incontestável. Por incrível que pareça, "críticas" desse tipo são bastante frequentes, mas de maneira alguma valorizam a ciência.

O que apoia uma teoria científica, sem dúvida, é a experimentação. Mas a experimentação, por si só, ou falseia ou corrobora uma hipótese e/ou uma teoria. Segundo Popper (1), uma teoria será tanto melhor quanto mais propensa for a testes de falseabilidade pelos quais, obviamente, terá que passar. Ao passar por um teste dizemos que foi corroborada. Vejamos então até que ponto devemos valorizar o falseamento ou a corroboração.

O falseamento pode ou não ser convincente e pode ou não ganhar consenso. Não é sempre que a experiência, por melhor que tenha sido sistematizada, nos dá o controle absoluto da totalidade dos fatos intervenientes. A teoria gravitacional de Newton, por exemplo, chegou a ser "falseada" ao se perceberem efeitos estranhos e responsáveis por desvios aparentemente inexplicáveis na órbita dos planetas conhecidos na época, pois que eram provocados por planetas ainda não descobertos. Estamos aqui frente a falácias experimentais e não a um falseamento propriamente dito; não há também porque se falar, neste caso, em hipóteses "ad hoc", via de regra mal vistas em ciência.

Ao pensarmos no possível falseamento de uma teoria devemos então considerar três possibilidades associadas:

1) No caso das teorias incompletas, e como comentado no item 2.1.7, o autor assume a existência de "variáveis escondidas" de natureza teórica e a comportarem uma certa lógica. Prevê, então, ou deixa patente, a possibilidade do encontro de desvios experimentais a surgirem com o aperfeiçoamento dos métodos de medida e/ou após a devida consideração das "variáveis" deixadas de lado.

2) O bom experimentador, por seu turno, deve dominar sua área de atuação, a ponto de, antes de propalar um falseamento, prever a possibilidade da existência de "variáveis escondidas" de natureza experimental como, por exemplo, os planetas desconhecidos do exemplo citado no parágrafo anterior.

3) As hipóteses "ad hoc", por sua vez, conquanto se prestem a refutar a falseabilidade, costumam ser mal vistas porque denunciam o despreparo do teorizador, a se apoiar num método de tentativa e erro, a se caracterizar por riscos evitáveis associados a perdas de tempo e ao encarecimento desnecessário da atividade científica. Não obstante, não é impossível que a ciência evolua às custas de teorias incompletas deste tipo e nem sempre de má qualidade.

 

Corroborar uma teoria, por outro lado, nada mais é do que somar, à sua credibilidade, virtudes de valorização subjetiva. Não há como probabilizar este efeito, no sentido em que possamos dizer que a teoria ficou mais próxima da verdade por um valor mensurável. Seria como andar no interior de um túnel sem visualizar o seu fim. Sabemos que estamos progredindo mas não sabemos quanto mais próximos estamos do final do túnel. Sequer sabemos se este túnel tem ou não uma saída na direção e sentido em que estamos caminhando.

 

É graças a isso que se diz, e estou aqui assumindo uma postura a se apoiar na doutrina racionalista, que o cientista é aquele que procura pela verdade. Assumimos esta postura ao acreditarmos que a ciência apoia-se única e exclusivamente no método científico e na crença de que ela ainda não atingiu a categoria de doutrina pois, a partir de então, não haveria mais porque permanecermos procurando pelas verdades. E é por isso que o tempo passa e as teorias caem, tão logo seus frutos tenham amadurecido.

Ciência na Antiguidade

A ciência na antiguidade formava um corpo único com a filosofia e, em decorrência disso, não é fácil, utilizando-se os critérios atuais a delimitarem estas duas áreas do conhecimento, reconhecer uma autêntica ciência antiga a se apoiar na experimentação. Não havia a preocupação em distinguir doutrina filosófica de teoria científica, no sentido que hoje se dá aos termos. Pelo contrário, as experiências, quando passíveis de execução, destinavam-se mais a somar argumentos favoráveis a uma doutrina mais geral do que a propor leis particulares ou específicas.

À medida em que os equipamentos laboratoriais foram se sofisticando, o ser humano passou a valorizar a especialização. Na antiguidade, graças aos parcos recursos experimentais, seguia-se um caminho inverso, a caminhar do geral para o particular. Ora, a observação do geral presta-se mais a argumentações do que a medições; e argumentos desse tipo prestam-se mais a críticas através do diálogo do que a contraprovas experimentais.

 

E a sistematização dos conhecimentos assim adquiridos, ainda que eventualmente comprovados para casos particulares através da experimentação, assumia a condição de doutrina. Em essência, não há como distinguir o ideal perseguido por um filósofo da antiguidade daquele perseguido pelos proponentes das teorias científicas unificadoras, ainda que seus pontos de partida sejam, à primeira vista, antagônicos.

É importante deixar claro que a experimentação não é exclusividade da ciência moderna. Experimentadores como Arquimedes, Erastótenes ou Heron não ficam nada a dever aos melhores experimentadores da atualidade. Houve, sim um novo enfoque dado à experimentação na atualidade, a propor uma delimitação entre o pretenso conhecimento objetivo produzido pela ciência e o conhecimento filosófico, a se apoiar num racionalismo subjetivo.

O atomismo na antiguidade grega

O atomismo, do grego "atoma", a significar coisas que não podem ser divididas, é uma doutrina filosófica destinada a explicar fenômenos complexos às custas da associação de fatores unitários, diminutos, homogêneos, duros, incomprimíveis, indivisíveis e imutáveis ou eternos (2) (3). Há que considerar também um vácuo, ou espaço infinito e vazio, no qual estão em movimento perpétuo. O atomismo, num senso estrito, caracterizar-se-ia ainda por assumir átomos qualitativamente idênticos —a diferirem entre si somente em forma, tamanho e movimento— e a combinarem-se por justaposição (3).

O atomismo começou com Leucipo (sec.V a.C) e foi desenvolvido por seu discípulo Demócrito (460-370 a.C). Há quem admita o atomismo como uma evolução das idéias de Parmênides sobre a unidade e imutabilidade do ser: O atomismo representaria, em sua origem, uma tentativa de reconciliamento entre a tese de Parmênides e a observação da multiplicidade e transformação dos objetos naturais (3); os átomos permaneceriam inalterados conquanto pudessem modificar suas maneiras em se associarem, em qualidade ou quantidade.

 

Em algumas de suas versões o atomismo incorporou os quatro elementos básicos (fogo, ar, água e terra) da doutrina de Empédocles (490-430 a.C) e, em outras, a idéia, devida a Anaxágoras (500-428 a.C), de que existiriam tantos átomos diferentes quantas fossem as substâncias diferentes. Na doutrina dos quatro elementos de Empédocles encontra-se também a proposição da existência de duas forças de interação: "Amor", a unir os elementos, e "Conflito" a separá-los (4). A despeito de seu sucesso inicial, o atomismo não ganhou maior destaque entre o pensamento grego; não obstante, deixou raízes, de tal forma a se notar uma forte influência até mesmo entre os que o rejeitaram, tais como Platão e Aristóteles.

Existe um perfeito entrelaçamento entre o atomismo e outras doutrinas ou correntes de pensamento que também exerceram forte influência no desenvolvimento das primitivas teorias atômicas (séculos XVII a XIX), quais sejam, o realismo, o mecanicismo e o racionalismo. O realismo denuncia-se não só pela aceitação da existência do átomo mas também por admitir a possibilidade de se chegar às propriedades fundamentais através da razão (racionalismo); e a descrição dessas propriedades em termos mecânicos (mecanicismo) impõe-se para que se chegue à adequada expressão da realidade (realismo) (3). Quanto ao relacionamento atomismo-racionalismo-realismo, nada melhor do que expor uma das máximas de Demócrito:

Existem duas formas de conhecimento: o conhecimento autêntico e a opinião. Correspondem à opinião: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. O conhecimento autêntico é completamente distinto: quando o objeto é demasiado pequeno e não pode ser conhecido através da opinião, não pode ser visto, ouvido, cheirado nem tocado; quando se exige maior profundidade ao conhecimento, então atua o autêntico, que possui um instrumento para captar a verdade: o pensamento.(5)

Evolução do atomismo às teorias atômicas

Nos primórdios da ciência moderna, o racionalismo grego era ainda a única maneira de perscrutar o domínio do infinitamente pequeno.Graças a essa limitação experimental, o atomismo parece ser o protótipo de área do conhecimento onde se nota, com maior nitidez, a evolução nos métodos de produção de conhecimentos partindo de um caráter puramente doutrinário, ainda aceito no século XVII, prosseguindo por vias filosófico-científicas, ora a privilegiarem evidências experimentais indiretas, ora a acoplarem argumentações metafísicas às novas teorias, até chegarmos nas modernas teorias atômicas da atualidade.

 

Percebe-se, então, que esta área do conhecimento ainda não se libertou totalmente deste caráter doutrinário; e não é impossível que estejamos a meio caminho de perceber que o "átomo de Dalton está para os átomo de Demócrito assim como a nossa Galáxia está para a Terra" (6) Quem sabe seja este o motivo pelo qual a profecia de Heisenberg (7) [vide cabeçalho deste capítulo] esteja tardando tanto para se concretizar.

O ponto de partida, a interessar os cientistas do século XVII a promoverem uma revisão no atomismo de Demócrito, parece ter sido a percepção manifestada por Galileu em 1638 sobre uma possível existência do vácuo. Até então prevaleciam as idéias de Descartes a negar o vácuo e a propor a existência dos vórtices criados por movimentos conjuntos de partículas, com cada uma ocupando sucessivamente os locais desocupados pelas outras.

 

O vácuo foi demonstrado alguns anos mais tarde (1644) por Torricelli (8), discípulo de Galileu; e, a partir de 1658, Boyle (9) iniciou uma série de experiências a culminarem com a lei que recebeu o seu nome e a relacionar pressão e volume de gases. A partir destas experiências, Boyle convenceu-se de que os gases compunham-se de partículas sólidas associadas em moléculas, estando as diversas propriedades dos gases relacionadas ao tipo de associação. Newton chegou a expressar sua simpatia pelas idéias de Boyle nos seguintes termos:

... parece provável para mim que Deus no começo formou a matéria em partículas movíveis, impenetráveis, duras, volumosas, sólidas, de tais formas e figuras, e com tais outras propriedades e em tal proporção ao espaço, e mais conduzidas ao fim para o qual Ele as formou; e que estas partículas primitivas, sendo sólidas, são incomparavelmente mais duras do que quaisquer corpos porosos compostos delas; mesmo tão duras que nunca se consomem ou se quebram em pedaços; nenhum poder comum sendo capaz de dividir o que Deus, Ele próprio, fez na primeira criação. (10)

Não obstante, e a despeito destas constatações experimentais, não tardou a emergir a idéia dos "pontos metafísicos de existência real" de Leibiniz (1646-1716), chamados mônadas. O argumento de Boyle somente chegou a ser expresso matematicamente oitenta anos mais tarde (1738) por Daniel Bernoulli, precursor da teoria cinética dos gases, teoria esta que chegou a ser rejeitada pelos físicos por mais de um século.

 

Bernoulli, partindo de um modelo a considerar os gases constituídos por um grande número de partículas em movimentos rápidos e caóticos, deduziu a lei de Boyle, assumindo a pressão como decorrente do impacto mecânico das partículas sobre as paredes do recipiente. Concluiu também que ao receberem calor as partículas de gás movem-se mais rapidamente.

Ainda que muitos físicos tenham se mostrado cépticos quanto ao ressurgimento do atomismo e sua evolução para uma teoria atômica da matéria, esta lentamente foi se acoplando à química experimental com Proust (lei das proporções definidas, 1794), Gay-Lussac (11) (relações volumétricas de gases, 1809) e Avogadro (12) (hipóteses a explicarem as relações volumétricas, 1811), estas últimas a complementarem a nascente teoria atômica de Dalton (13) (1803-8).

 

A teoria atômica somente chegou a ser definitivamente aceita em química após a síntese efetuada por Canizzarro (1858), em que revigorou as idéias de Avogadro ao elucidar problemas relativos a notações químicas (fórmulas químicas destinadas a esclarecer como os átomos se associam em moléculas). A partir do trabalho de Canizzarro, Mendeleyev (14) construiu, em 1869, a primeira tabela periódica.

Após os trabalhos de Mayer (1842) e de Joule (1849), a demonstrarem que o calor é uma forma de energia, os físicos enfim deixaram de lado a doutrina do calórico e passaram a se interessar pelos trabalhos de Bernoulli (1738), de Herapath (1821) e de Waterston (1845) relativos à teoria cinética dos gases, a qual se completou com os estudos de Clausius (1857), Maxwell (15) e Boltzmann (1860), a fornecerem as bases para as teorias atômicas da física atual.

o que é Teoria

O QUE É TEORIA

Nem todas as ideias que temos são comprováveis

Na opinião de muitos filósofos e historiadores da ciência, toda e qualquer área do conhecimento que reivindique para si o rótulo de disciplina científica deve ser capaz de gerar proposições preditivas a respeito do mundo. A pertinência de tais proposições deve estar sujeita a avaliação, notadamente por meio de algum teste empírico, uma espécie de teste por meio do qual seria possível verificar se há alguma correspondência apropriada entre a proposição e aquilo que mundo exterior “nos diz”.

De tudo o que nós, seres humanos, somos capazes de imaginar, apenas um subconjunto bastante particular é formado por ideias verdadeiramente científicas. Diz-se que uma ideia é científica quando ela é objetivamente comprovável por meio de dados empíricos. Nem todas as ideias que temos são comprováveis. Entre aquelas que o são, algumas são comprováveis empiricamente, outras apenas teoricamente. Entre as ideias que são comprováveis empiricamente, algumas o são de modo direto, outras apenas de modo indireto.

A distância entre as margens de um caderno, por exemplo, pode ser estimada de modo direto, bastando para isso lançar mão de uma régua escolar. A distância entre duas cidades é comumente estimada de modo indireto (e.g., em um mapa), embora alguém no passado deva ter feitos medições diretas. Existem, no entanto, muitas distâncias que só podem ser estimadas de modo indireto, como é o caso da distância entre a Terra e o Sol e da distância que separa qualquer par de estrelas em uma constelação.

Testes experimentais como critério

Um tipo de teste empírico particularmente valioso é o teste experimental, por meio do qual o observador pode intervir deliberadamente em um sistema sob estudo – e.g., controlando a quantidade da luz que incide sobre várias amostras de sementes. A realização de experimentos nos permite ampliar e aprofundar o conhecimento científico que temos a respeito do mundo. A explicação para isso é que tal metodologia nos permite identificar e, muitas vezes, isolar e quantificar a contribuição relativa de diferentes variáveis que afetam o comportamento de um sistema particular.

 

Assim, tendo constatado que determinada quantidade de luz estimula a germinação, o observador pode investigar em seguida a influência da qualidade da luz (i.e., a contribuição relativa dos diferentes comprimentos de onda).

No mundo da ciência, os palpites do observador são comumente expressos por meio da formulação de hipóteses. No âmbito das ciências experimentais, mais especificamente, uma hipótese pode ser definida como um palpite bem informado a respeito dos resultados de um teste – e.g., um palpite sobre a influência (positiva ou negativa) que diferentes comprimentos de onda teriam na germinação das sementes.

 

Diante de duas ou mais hipóteses conflitantes ou mutuamente excludentes, a realização de testes experimentais permitiria ao observador escolher a mais apropriada. A ideia é reter a hipótese que mais bem se ajusta aos resultados obtidos, descartando (temporária ou definitivamente) as hipóteses concorrentes. Por meio da realização de testes gradativamente mais detalhados e rigorosos, as proposições científicas se tornam cada vez mais precisas e refinadas.

Cabe registrar que nem sempre é possível verificar a pertinência de uma proposição por meio de testes experimentais. Veja o caso da astronomia, da cosmologia e da geofísica, disciplinas científicas dedicadas ao estudo de objetos e fenômenos que dificilmente podem ser submetidos à experimentação direta. Em casos assim, o investigador deve se guiar com base em dados e informações obtidos por vias indiretas.

Proposições preditivas e explicações

Além de formular predições, uma disciplina científica deve ser capaz de elaborar explicações a respeito das coisas do mundo. Tanto as previsões como as explicações devem ser consistentes, o que significa dizer que os seus desdobramentos devem estar de acordo com o “mundo exterior”.

Prever e explicar são objetivos que toda disciplina científica almeja alcançar, mas que em geral se manifestam por meio de duas entidades distintas, as hipóteses e as teorias. Um jeito simples de ressaltar a diferença entre hipótese e teoria é dizer que as hipóteses preveem, enquanto as teorias explicam.

Enquanto muitas hipóteses são expressas em uma única assertiva, as teorias são mais bem caracterizadas como narrativas mais ou menos complexas. Nem toda narrativa, contudo, é uma teoria científica. Para ser vista como tal, a narrativa deve integrar argumentos (verbais ou matemáticos) cujas assertivas foram previamente submetidas a algum tipo de teste empírico. Esse é o caso da teoria da relatividade, da teoria atômica e da teoria da evolução por seleção natural – três narrativas que integram conceitos, leis e hipóteses sobre determinados fenômenos do mundo.

Em resumo, a elaboração de uma teoria científica requer que dois critérios sejam atendidos: coerência lógica e correspondência com a realidade. O primeiro tem a ver com o modo como as afirmações feitas pela teoria estão conectadas entre si e com o corpo de conhecimento mais amplo, dentro do qual a teoria está inserida. O segundo tem a ver com o modo como as afirmações feitas estão de acordo com os fatos conhecidos e, no caso das ciências experimentais, com os resultados de testes experimentais.

Progresso científico

Os registros históricos indicam que o progresso científico é mais uma questão de refinamento teórico do que de mero acúmulo de dados e informações. E esse processo de refinamento inclui tanto o abandono de ideias equivocadas como a formulação de novas teorias.

Uma teoria sobrevive enquanto é capaz de oferecer respostas apropriadas às perguntas que fazemos. Diz-se que há uma “crise epistemológica” quando uma teoria já não é mais capaz de explicar uma determinada classe de fenômenos (i.e., dados “brutos” ou resultados de testes experimentais) ou quando certos fenômenos passam a contradizer o que está estabelecido. No decurso de uma crise, os novos achados passam a ser tratados como “anomalias”, sendo então deixados de lado (ao menos durante algum tempo). À medida que a quantidade de resultados anômalos continua a aumentar, a sobrevivência e o status quo da teoria até então hegemônica são postos à prova. Cedo ou tarde, a teoria terá de enfrentar os resultados anômalos.

Tento constatado que os resultados anômalos não foram produzidos por problemas metodológicos ou por algum outro tipo de distorção, um número crescente de investigadores tende a se debruçar sobre eles. Muitas vezes, chega-se a um ponto em que fica claro que o problema não está nos resultados, mas no próprio corpo da teoria. De acordo com alguns filósofos e historiadores da ciência, esse tipo de impasse costuma ser resolvido por meio de uma ruptura ou revolução científica: a teoria corrente deve ser abandonada, em detrimento de uma nova teoria.

Todavia, os cientistas dificilmente abandonam uma teoria velha e problemática sem que haja ao menos o esboço de uma teoria alternativa. A nova teoria deve ser capaz de lidar com os resultados até então considerados “anômalos”, os quais a partir de então passam a ser tratados como resultados “normais”. Em outras palavras, após um período revolucionário, as anomalias passam a ser citadas como exemplos.

Quantidade e qualidade das teorias

O progresso de uma disciplina científica depende da quantidade e, sobretudo, da qualidade de suas teorias. Quanto mais madura uma disciplina científica, mais e melhores teorias ela terá. Veja-se, por exemplo, a grande diferença que há entre a física e a biologia.

A física é uma disciplina científica bem mais madura. Não apenas porque é uma disciplina mais antiga, mas principalmente porque as suas teorias são bem mais precisas e refinadas. A biologia é uma ciência incomparavelmente mais rica em detalhes descritivos, mas as suas generalizações ainda são relativamente imprecisas e, em muitos casos, bastante grosseiras. A teoria da evolução por seleção natural é não apenas uma das poucas teorias biológicas de amplo alcance, mas também a mais importante delas.

Ocorre que, ao contrário de teorias científicas de cunho e formulação mais abstratos (como é o caso da teoria da relatividade), a teoria evolutiva costuma ser apresentada em termos exclusivamente verbais. Tal formulação emana um ar de simplicidade lógica, dando a falsa impressão de que o assunto é facilmente acessível ao senso comum – alguns jornalistas chegam a emitir os seus próprios palpites, a exemplo do que fazem com os jogos de futebol, as intrigas palacianas, os programa de TV e outras coisas do gênero. ocorre que o conhecimento científico, diferentemente do que alguns observadores parecem imaginar, não é propriamente uma questão de gosto ou preferência individual.

 

No médio e no longo prazo, a cortina de fumaça que cerca momentaneamente a arena científica é dissipada, restando apenas o que importa: conceitos, modelos, hipóteses, teorias etc. – i.e., ideias que em boa medida têm norteado o pensamento e a aventura humana sobre a Terra.

o que não é Teoria

O que não é teoria

  

Robert I. SuttonI; Barry M. StawII

IStanford University
IIUniversity of California, Berkeley

 

RESUMO

Este ensaio descreve as diferenças entre artigos que possuem alguma teoria dos que não possuem teoria. Há pouco acordo sobre o que constitui uma teoria forte versusuma teoria fraca nas Ciências Sociais, mas há mais consenso sobre o fato de que referências, dados, variáveis, diagramas e hipóteses não são teoria. Entretanto, a despeito de tal consenso, autores rotineiramente usam esses cinco elementos no lugar de teoria. Explicamos como cada um dos cinco elementos pode ser confundido com teoria e como evitar tal confusão. Ao tornar explícito esse consenso, esperamos ajudar os autores a esquivarem-se de alguns dos mais comuns, e facilmente evitáveis, problemas que levam os leitores a considerar artigos como possuindo uma teoria inadequada. Discutimos então como os periódicos científicos poderiam facilitar a publicação de teorias mais fortes. Sugerimos que, se o campo está preocupado com a produção de teorias fortes, as revistas científicas precisam reconsiderar suas exigências empíricas. Defendemos que esses periódicos deveriam ser mais receptivos aos artigos que testam parte de uma teoria, e não a teoria toda, e ao uso de dados ilustrativos em vez de dados definitivos.

Palavras-chave: Teoria, ciIencias sociais, referências, dados, variáveis.

ABSTRACT

This essay describes differences between papers that contain some theory rather than no theory. There is little agreement about what constitutes strong versus weak theory in social sciences, but there is more consensus that references, data, variables, diagrams, and hypotheses are not theory. Despite this consensus, however, authors routinely use these five elements in lieu of theory. We explain how each of these five elements can be confused with theory and how to avoid such confusion. By making this consensus explicit, we hope to help authors avoid some of the most common and easily averted problems that lead readers to view papers as having inadequate theory. We then discuss how journals might facilitate the publication of stronger theory. We suggest that if the field is serious about producing stronger theory, journals need to reconsider their empirical requirements. We argue that journals ought to be more receptive to papers that test part rather than all of a theory and use illustrative rather than definitive data.

Key words: Theory, social sciences, references, data, variables.

 

 

INTRODUÇÃO

Autores, pareceristas, leitores e editores que definem o que é publicado no Administrative Science Quarterly - ASQ - insistem, talvez acima de qualquer outra coisa, para que os artigos contenham uma forte Teoria Organizacional. A "Nota aos Colaboradores" do ASQ enuncia: "Se os trabalhos não contêm teoria, seu valor é suspeito". Uma razão primária, às vezes "a" razão primária, para pareceristas e editores decidirem não publicar um texto submetido é a de que ele possui uma teoria inadequada. O presente ensaio, que se baseia em nossas experiências editoriais no ASQ e na Research in Organizational Behavior - ROB -, identifica algumas razões comuns pelas quais os artigos são considerados teoricamente fracos.

Autores que desejam escrever uma teoria forte deveriam começar lendo a diversa literatura que busca definir teoria e distinguir aquela que é fraca daquela que é forte. A Academy of Management Review publicou um fórum sobre a construção teórica em outubro de 1989. Neste fórum podem ser encontradas descrições detalhadas do que é teoria e distinções entre teoria fraca e teoria forte nas Ciências Sociais -, por exemplo, na análise da construção teórica em áreas aplicadas, feita por Dubin (1976), no exame da teorização formal feita por Freese (1980), nos escritos de Merton (1967) sobre a sociologia teórica, e nas idéias de Weick (1989) sobre a construção teórica como imaginação disciplinada.

Infelizmente, a literatura sobre construção teórica pode deixar o leitor mais confuso ainda sobre como escrever um artigo que contenha uma teoria forte (Freese, 1980). Há uma falta de consenso sobre o fato de um modelo e uma teoria poderem ser distinguidos, de uma tipologia ser apropriadamente chamada de teoria ou não, de a força de uma teoria depender de quão interessante ela é, e de sua falsificabilidade ser um pré-requisito para a própria existência de uma teoria. Como destaca Merton (1967, p. 39): "Do mesmo modo que as palavras faladas sem critério, a palavra teoria ameaça se tornar sem sentido. Pelo fato de seus referentes serem tão diversos - incluindo tudo, desde hipóteses de trabalho menores, passando por especulações compreensivas, porém vagas e desordenadas, até sistemas axiomáticos de pensamento - o uso da palavra freqüentemente obscurece - em vez de gerar - a compreensão".

A falta de consenso sobre o que é exatamente teoria explica por que é tão difícil desenvolver uma teoria forte nas ciências do comportamento. Pareceristas, editores e outras audiências podem sustentar crenças inconsistentes sobre o que constitui teoria e o que constitui uma teoria forte versus uma teoria fraca. Espera-se que os teóricos organizacionais se deparem com outros obstáculos devido ao baixo consenso sobre quais perspectivas teóricas - e os jargões a elas associados - são mais adequadas para descrever as organizações e seus membros (Pfeffer, 1993). Mesmo quando um artigo possui uma teoria bem articulada que se ajusta aos dados, os editores ou pareceristas podem rejeitá-lo ou insistir que a teoria seja substituída simplesmente porque ela bate de frente com seus gostos conceituais particulares. Finalmente, o processo de construção teórica é, por sua vez, repleto de contradições e conflitos internos.

 

Os acadêmicos organizacionais, como aqueles nos outros campos das ciências sociais, são forçados a fazer tradeoffs entre generalidade, simplicidade e acurácia (Weick, 1979) e desafiados a escrever argumentos logicamente consistentes e integrados. Essas dificuldades podem ajudar a explicar por que as revistas científicas de pesquisas organizacionais possuem taxas tão altas de rejeição. Escrever uma teoria forte consome tempo e implica um elevado ensaio-e-erro, mesmo para os acadêmicos mais habilidosos. Esse também é o motivo pelo qual há uma grande estima por aquelas poucas pessoas, como James March, Jeffrey Pfeffer e Karl Weick, que são capazes de fazer isso de maneira consistente.

Não temos idéias mágicas sobre como construir uma teoria organizacional importante. Não apresentaremos um conjunto de algoritmos ou passos lógicos para se construírem teorias fortes. O propósito deste ensaio é mais modesto. Explicamos por que alguns artigos, ou partes de artigos, são vistos como não possuidores de absolutamente nenhuma teoria, em vez de possuidores de alguma teoria. Embora haja conflito sobre o que é uma teoria e sobre o que ela deveria ser, há mais consenso sobre o que não é uma teoria. Consideramos cinco características de um artigo acadêmico que, apesar de importantes em si mesmas, não constituem teoria. Pareceristas e editores parecem concordar, embora implicitamente, que essas cinco características não deveriam ser interpretadas como parte do argumento teórico. Ao tornar tal consenso explícito, esperamos ajudar os autores a evitarem algumas das mais freqüentes razões pelas quais seus textos são considerados teoricamente inadequados.

 

PARTES DE UM ARTIGO QUE NÃO SÃO TEORIA

Referências não são teoria

Referências a teorias desenvolvidas em trabalhos prévios ajudam a montar o cenário para novos argumentos conceituais. Os autores precisam reconhecer o veio lógico sobre o qual estão se baseando e para o qual estão contribuindo. No entanto, listar referências a teorias existentes e mencionar os nomes de tais teorias não é o mesmo que explicar a lógica causal que possuem. Para ilustrar, esta sentença do artigo de Sutton (1991, p. 262) sobre cobradores possui três referências, mas nenhuma teoria: "Esse padrão é consistente com as descobertas de que a agressão provoca a resposta de 'luta' (Frijda, 1986) e que a raiva é uma emoção contagiosa (Schactert e Singer, 1962; Baron, 1977)". A sentença lista publicações que possuem argumentos conceituais, e algumas descobertas. Entretanto, não é teoria, pois nenhuma lógica é apresentada para explicar por que a agressão provoca "luta" ou por que a raiva é contagiosa.

Pedidos para "mais teoria", feitos pelos pareceristas e editores, são freqüentemente atendidos com uma enxurrada de citações. Em vez de apresentar argumentos mais detalhados e convincentes, autores listam nomes de teorias dominantes ou de escolas de pensamento, sem fornecer sequer uma explicação de por que a teoria ou abordagem leva a uma questão teórica nova ou não respondida. Um texto editado por Robert Sutton possuía dados fortes, mas todos os três pareceristas enfatizaram que possuía uma "teoria fraca" e "hipóteses pobremente motivadas". O autor respondeu a essas observações escrevendo uma nova introdução que adicionava citações de muitos artigos contendo teorias e muitos termos como "teoria psicossocial", "teoria da identidade" e "teoria da comparação social". No entanto, seu artigo ainda não continha uma discussão acerca do que eram tais teorias e nenhuma discussão dos argumentos lógicos sobre o porquê dessas teorias terem conduzido as predições do autor. O resultado foi que seu artigo possuía quase nenhuma teoria, a despeito da declaração do autor de que muito tinha sido acrescentado.

Referências são às vezes usadas como uma cortina de fumaça para encobrir a ausência de teoria. Podemos pensar em exemplos nos quais usamos uma série de referências para encobrir o fato de que realmente não tínhamos entendido o fenômeno em questão. Esse ofuscamento pode, infelizmente, ser bem-sucedido quando as referências são feitas em relação a trabalhos amplamente conhecidos e citados, como os de Kanter (1977), Katz e Kahn (1978), March e Simon (1958), Thompson (1967) e Williamson (1975). Mark Twain definiu um "clássico" como "um livro que as pessoas admiram mas não lêem". Artigos para revistas de pesquisa organizacional incluem tipicamente um conjunto desse tipo de referências clássicas. Essas citações podem mostrar que o autor é um membro qualificado da área, mas elas não demonstram que um caso teórico tenha sido construído.

Os autores precisam explicar quais conceitos e argumentos causais são adotados a partir das fontes citadas, e como eles são vinculados à teoria que está sendo desenvolvida ou testada. Essa sugestão não significa que um artigo precise analisar todas as nuanças de cada teoria citada. Antes, significa que deveria ser incluída uma quantidade suficiente da lógica pertinente de trabalhos teóricos passados a fim de que o leitor consiga apreender os argumentos lógicos do autor.

 

Por exemplo, Weick (1993, p. 644) reconheceu sua dívida conceitual com o trabalho de Perrow e apresentou os aspectos de que precisava para manter um fluxo lógico nesta sentença extraída de seu artigo sobre o colapso da construção do sentido: "Já que há muito pouca comunicação dentro da tripulação, e já que ela atua amplamente por meio de controles intrusivos, como regras e vigilância (Perrow, 1986), ela age mais como um grande grupo formal com uma comunicação mediada do que como um pequeno grupo informal com uma comunicação direta". Observemos que não há necessidade de o leitor conhecer ou ler o trabalho de Perrow a fim de acompanhar a lógica na sentença.

Dados não são teoria

A maior parte da teoria organizacional é baseada em dados. A evidência empírica desempenha um papel importante na confirmação, reconsideração ou no descrédito das teorias correntes e na orientação para o desenvolvimento de novas teorias. No entanto, padrões observados, tais como beta weights, cargas fatoriais ou enunciados consistentes fornecidos por informantes, raramente constituem explicações causais. Kaplan (1964) afirmou que a teoria e os dados desempenham, cada um deles, um papel diferente na pesquisa na ciência do comportamento: os dados descrevem quais padrões empíricos foram observados, e a teoria explica por que os padrões empíricos foram observados ou se esperaria que fossem observados.

A distinção entre a quantidade e o tipo de evidência que dá sustentação a uma teoria e a própria teoria pode ser óbvia para a maioria dos leitores. Entretanto, nos artigos que analisamos e editamos ao longo dos anos essa é uma fonte comum de confusão. Vemos tal confusão em artigos de autores experientes e inexperientes. Podemos vê-la também em nossos próprios artigos. Autores tentam desenvolver uma base teórica para descrever achados empíricos a partir de pesquisas passadas e então rapidamente partem dessa base para uma discussão dos resultados em questão. O uso de uma série de achados, e não de uma mescla de achados e de raciocínio lógico, para justificar hipóteses é especialmente comum. Os resultados empíricos podem certamente fornecer um suporte válido para a teoria. No entanto, eles não deveriam ser interpretados como teoria por si próprios. Achados prévios não podem, por si mesmos, motivar hipóteses, e o relato dos resultados não pode substituir o raciocínio causal.

Em um dos primeiros artigos de Sutton (Carillon e Sutton, 1982, p. 172-3), o seguinte parágrafo tentava motivar cinco hipóteses sobre o relacionamento entre a eficiência dos sindicatos e o bem-estar de seus membros: "Evidência empírica recente sugere que o processo de barganha coletiva (Kochan, Lipsky e Deyer, 1974; Peterson, 1972), o contrato entre sindicatos e empresas (Davis e Sullivan, 1980) e as relações entre sindicato e empresas (Koch e Fox, 1978) têm importantes conseqüências para a qualidade de vida no trabalho dos sindicalizados.

 

Além disso, Hammer (1978) investigou a relação entre a força do sindicato e a elaboração das reações dos trabalhadores a seu trabalho. Ela descobriu que a força do sindicato - definida em termos dos rendimentos relativos dos trabalhadores - estava relacionada positivamente com a satisfação com o salário e com a percepção de segurança de emprego. Finalmente, a habilidade do sindicato em aumentar formalmente a participação dos membros nas decisões relacionadas ao trabalho foi freqüentemente citada como contribuindo para a sindicalização de professores e outros profissionais (por exemplo, Bass e Mitchell, 1976; Belasco e Alutto, 1969; Chamot, 1976)".

Não há uma tentativa, nesse parágrafo, de explicar as razões lógicas sobre por que os achados particulares ocorreram no passado ou por que certas relações empíricas são antecipadas no futuro. Dele somente aprendemos que outros relataram certos achados, e que, portanto, padrões similares deveriam ser esperados. Esse é um exemplo de empirismo bruto, em que as hipóteses são motivadas por dados prévios e não pela teoria.

Embora nossos exemplos estejam focados no uso de dados quantitativos passados para motivar teoria e hipóteses, artigos qualitativos não são imunes aos mesmos problemas. Citações de entrevistados ou observações detalhadas podem chegar tão perto das forças causais subjacentes do que, digamos, os escores médios de satisfação no trabalho ou o tamanho organizacional, mas a evidência qualitativa, por sua vez, não pode expressar argumentos causais que sejam abstratos e simples o suficiente para serem aplicados a outros contextos. Da mesma forma que teóricos que usam dados quantitativos, aqueles que usam dados qualitativos devem desenvolver argumentos causais para explicar por que achados repetitivos têm sido observados, no caso de desejarem escrever artigos que contenham teoria (Glaser e Strauss, 1967).

Ao comparar as equipes autogerenciadas com as equipes tradicionais com chefes, Barker (1993, p. 408) citou um entrevistado: "'Agora, a equipe inteira fica em volta de mim e a equipe inteira fica observando o que estou fazendo'". Essa citação não possui uma lógica causal e não é abstrata o suficiente para ser generalizada para outros contextos. No entanto, esses dados ajudaram a orientar e sustentar a inferência de Barker, segundo a qual as equipes autogerenciadas restringem os membros de modo bastante forte, pois cada membro da equipe possui uma autoridade legítima sobre todos os outros, e porque a vigilância de diversos co-trabalhadores é mais difícil de ser evitada do que a de um único chefe. Assim, embora os dados qualitativos tenham inspirado as inferências de Barker, eles são distintos de sua análise teórica. Mintzberg (1979, p. 584) sintetizou essa distinção de modo bem sucinto: "Os dados não produzem teoria - somente os pesquisadores fazem isso".

Listas de variáveis ou construtos não são teoria

As páginas de 249 a 253 de Organizations, de March e Simon (1958), apresentam um índex numérico para 206 variáveis discutidas no clássico livro. Essa lista de variáveis e as definições que March e Simon apresentam para elas são parte importante de sua teoria, mas não constitui, sozinha, teoria. Uma teoria deve também explicar por que as variáveis ou os construtos ocorrem ou por que eles estão conectados. Weick (1989, p. 517) citou Homan para elaborar essa questão: "De particular interesse é a irritação de Homan com os teóricos que equiparam teoria com definições conceituais; ele enunciou que 'a maior parte da teoria sociológica oficial consiste, na verdade, de conceitos e suas definições; ela fornece um dicionário de uma linguagem que não possui sentenças'".

Artigos submetidos a revistas organizacionais freqüentemente são escritos como se variáveis ou construtos bem definidos fossem capazes, por si mesmos, de construir teoria. Às vezes, a lista de variáveis representa uma tentativa lógica de cobrir todos os determinantes de um dado resultado ou processo, ou a maioria deles. Tais listas podem ser úteis catálogos de variáveis que podem ser computados como preditores ou controles em equações de regressão múltipla ou nos modelos Lisrel - Linear Structural Relations -, mas elas não constituem teoria. Listar as características demográficas de pessoas associadas com um dado comportamento não é teoria.

 

Dividir o mundo em personalidades e determinantes situacionais não constitui, por si só, uma teoria do comportamento. Tampouco desenvolver um esquema categorial para cobrir os determinantes de uma variável dependente, tal como uma progressão (Staw e Ross, 1987), constitui uma explicação dessa variável.

Na medida em que é um campo que se baseia empiricamente, a pesquisa organizacional é freqüentemente seduzida pelos testes que apresentam a força relativa de um conjunto de variáveis contra outras que se relacionam a resultados particulares.

 

Somos atraídos por procedimentos que demonstrem a mais importante influência sobre as variáveis dependentes, como se a competição apresentasse quem é o ganhador. Testes comparativos de variáveis não deveriam ser confundidos com testes comparativos de teorias, pois um relacionamento preditivo deve ser explicado para que proporcione teoria. A simples listagem de um conjunto de antecedentes - ou mesmo uma ordenação causal de variáveis como nos modelos Lisrel - não constrói um argumento teórico. A questão-chave é por que se espera que um conjunto particular de variáveis seja um forte preditor.

Diagramas não são teoria

Diagramas ou figuras podem ser uma parte valiosa de um artigo de pesquisa, mas, por si mesmos, raramente constituem teoria. É provável que as representações me-nos teóricas sejam aquelas que simplesmente listam categorias de variáveis, tais como "personalidade", "determinantes ambientais" ou "demográficos". São de maior utilidade as figuras que apresentam relações causais em uma ordenação lógica, de modo que os leitores possam ver uma cadeia de causação ou como uma variável não controlada intervém sobre uma relação, ou a modera. Igualmente úteis são os diagramas temporais que apresentam o modo como um processo particular se desdobra ao longo do tempo. Ocasionalmente, os diagramas podem ser uma ajuda útil na construção de teoria. Para os pesquisadores que não são bons escritores, um conjunto de diagramas pode fornecer uma estrutura para argumentos que, de outra forma, seriam desconexos ou amorfos. Para aqueles pesquisadores que são escritores talentosos, possuir um modelo concreto pode evitar o obscurecimento de argumentos capciosos ou inconsistentes.

A despeito de seus méritos, diagramas e figuras deveriam ser considerados como apoios de palco e não como a própria representação. Como Whetten (1989) sugere, enquanto quadros e esquemas podem acrescentar ordem a um conceito ao delinear explicitamente padrões e conexões causais, raramente explicam por que as conexões propostas serão observadas. Alguma explicação verbal é quase sempre necessária. A lógica que está por detrás das relações representadas precisa ser claramente explicada. Um texto sobre as razões pelas quais um fenômeno ocorre, ou pelas quais ele se desdobra de uma maneira particular, é difícil de ser substituído pelas referências a um diagrama. Um argumento claramente redigido deveria também excluir a necessidade das figuras mais complicadas que vemos em artigos - que mais se parecem com diagramas de circuitos elétricos do que com uma teoria compreensível.

Uma boa teoria é, freqüentemente, representacional e verbal. Os argumentos são claros o bastante para se-rem representados em uma forma gráfica. Porém, os argumentos são também bastante ricos, de tal modo que o processo tem de ser descrito com sentenças e parágrafos a fim de cobrir as nuanças lógicas que estão por detrás do esquema causal. Uma indicação de que uma teoria forte tenha sido proposta é quando se torna possível discernir sobre as condições nas quais as maiores proposições ou hipóteses são mais ou menos prováveis de serem sustentadas. Pfeffer e Salancik (1978), por exemplo, argumentaram que o poder é um poderoso preditor das alocações de recursos nas condições de incerteza. House (1988), da mesma forma, defendeu que indivíduos com altas necessidades de poder têm maior probabilidade de ganhar o controle quando as organizações estão em um estado de fluxo. O raciocínio por detrás dessas predições, e mesmo sua direção, não se torna evidente simplesmente apresentando a existência de variáveis moderadoras em um diagrama causal. Explicações causais fazem-se necessárias.

Hipóteses (ou predições) não são teoria

Hipóteses podem ser uma parte importante de um argumento conceitual bem delineado. Elas servem como pontos cruciais entre teoria e dados, tornando explícito como as variáveis e as relações que se seguem de um argumento lógico serão operacionalizadas. Mas, como Dubin (1976, p. 26) observou, "um modelo teórico não é simplesmente um enunciado de hipóteses". Hipóteses não contêm - e não devem conter - argumentos lógicos sobre por que se espera que os relacionamentos empíricos ocorram. Hipóteses são enunciados concisos sobre o que se espera que ocorra, não por que se espera que ocorra.

Não podemos encontrar uma única origem que afirme que hipóteses, ou outras predições específicas, constituem, sozinhas, teoria. Como coloca Kaplan (1964, p. 350), "uma explicação depende de uma generalização nomológica ou teórica, ou de um padrão inteligível, mas uma predição não necessita ter essa base. [...] Podemos dar uma razão para se fazer alguma predição específica e não outra, mas não somos capazes de dar outra razão que não os sucessos passados para esperar que a razão se mostre verdadeira". Homans (1964), Merton (1967) e Weick (1989) representam apenas uma pequena parcela de autores que tornam claro que as predições apresentadas sem uma lógica causal subjacente não constituem teoria.

 

Embora possa parecer óbvio que uma lista de hipóteses não pode substituir um conjunto de explicações lógicas, é exatamente isso que é feito em muitos artigos. Identificamos dois importantes sinais que caracterizam um artigo que apresenta hipóteses no lugar de teoria. Primeiro, é possível haver tantas hipóteses que nenhuma pode ser adequadamente explicada ou motivada. Uma segunda dica é quando a introdução de um artigo termina com uma longa lista de hipóteses, uma tabela de predições, ou uma figura-sumário.

 

Com freqüência, tais listas, tabelas ou figuras são apenas tenuamente ligadas às explicações causais dispersas por toda a introdução, ou simplesmente pode inexistir qualquer ligação. Em um exemplo extremo, embora não incomum, Tetrick e LaRocco (1987) testaram 21 hipóteses sobre estresse no trabalho sem apresentar a lógica causal para qualquer uma dessas predições. As 21 hipóteses foram retratadas em uma figura e não foram discutidas, ou mesmo listadas, em nenhum dos cinco parágrafos que compunham a introdução. Para obter essa lógica conceitual, os leitores eram referenciados a outra fonte.

Às vezes, os autores usam uma extensa lista de hipóteses para "distribuir o risco" da pesquisa empírica. Uma grande quantidade de tempo e esforço é investida em projetos de pesquisa em que autores naturalmente desejam apresentar alguma coisa para seu trabalho. Eles podem usar uma estratégia de "dar tiro para todo lado" em relação ao teste teórico, colocando uma ampla série de hipóteses e testes empíricos. Ao mesmo tempo em que isso pode aumentar seu registro de publicações, não há a elaboração de uma boa teoria. Uma teoria forte origina-se de um único ou pequeno conjunto de idéias de pesquisa. Alguns exemplos famosos foram as afirmações de que as pessoas são motivadas a resolver inconsistências (Festinger, 1957), de que os sistemas sociais estão sujeitos a forças evolutivas (Campbell, 1969; Hannan e Freeman, 1989) e de que pode haver "acidentes normais" (Perrow, 1984).

 

Essas afirmações eram simples, embora suas implicações tenham sido amplas. A partir desses argumentos teóricos simples surgiu um conjunto de proposições e hipóteses inter-relacionadas que explicava as implicações lógicas e empíricas de cada teoria. Desse modo, artigos com uma teoria forte freqüentemente começam com um ou dois enunciados conceituais e constroem um caso logicamente detalhado; eles possuem, ao mesmo tempo, simplicidade e interconectividade.

 

IDENTIFICANDO UMA TEORIA FORTE

Embora tenhamos observado que é mais fácil identificar as características de textos que não possuem teoria do que especificar o que é exatamente uma boa teoria, nossos próprios preconceitos sobre a questão já se tornaram evidentes. Concordamos com acadêmicos como Kaplan (1964) e Merton (1967), que afirmam que a teoria é a resposta às indagações do por quê. A teoria diz respeito às conexões entre fenômenos, uma história sobre por que atos, eventos, estrutura e pensamentos ocorrem. A teoria enfatiza a natureza das relações causais, identificando o que vem primeiro e o ritmo desses eventos.

 

Uma teoria forte, em nossa opinião, mergulha nos processos subjacentes a fim de compreender as razões sistemáticas de uma ocorrência ou não-ocorrência particular. Investiga profundamente os micro-processos, lateralmente os conceitos adjacentes, ou, em uma direção ascendente, vincula-se aos fenômenos sociais mais amplos. Está normalmente amarrada a um conjunto de argumentos convincentes e logicamente interconectados. Pode ter implicações que não temos visto a olho nu - ou com nossos olhos desassistidos teoricamente. Pode ter implicações que vão contra nosso senso comum. Como coloca sucintamente Weick (1995), uma boa teoria explica, prevê e dá prazer.

Do mesmo modo que outras descrições de uma teoria forte, o parágrafo anterior pode ser lido mais como uma lista de desejos do que como um conjunto de expectativas realistas. Talvez seja por isso que os apelos por teorias melhores caiam bem aos ouvidos e não às mãos. Todos concordam que nossas teorias deveriam ser mais fortes, contanto que isso não exija que façamos qualquer coisa diferente. Essa é a principal razão pela qual decidimos escrever alguma coisa sobre o que não é uma teoria. Talvez a construção de nossos cinco sinais sobre o "caminho errado" ajude a mudar o comportamento de uma forma mais eloqüente do que qualquer mapa rodoviário.

 

O ARGUMENTO CONTRA A TEORIA

Até aqui temos partido do pressuposto de que teoria é algo bom. Assumimos que uma seção teórica mais forte ajudará um artigo a ter um impacto maior sobre a literatura e informar mais plenamente o leitor. Também admitimos que a maioria dos pesquisadores se esforçaria para escrever melhores teorias se eles tivessem mais conhecimento sobre como fazer isso ou mais tempo e energia para dedicar a seus escritos. No entanto, essas pressuposições podem não ser universalmente partilhadas.

Alguns pesquisadores proeminentes ofereceram argumentos contra a teoria. John Van Maanen (1989), por exemplo, destacou que o campo precisa primeiro descrever narrativas sobre a vida organizacional, presumivelmente baseado em um trabalho etnográfico intenso. Ele pediu uma moratória de dez anos para os artigos teóricos - e metodológicos. O feliz resultado de tal moratória, sugeriu Van Maanen, seria uma interrupção temporária da proliferação de escritos e teorias medíocres, uma audiência mais ampla - atraída por melhores escritos - e melhores teorias.

 

Depois que a moratória tivesse terminado, tanto os modelos velhos quanto os novos seriam fundamentados em um bem delineado conjunto de narrativas organizacionais. O argumento de Van Maanen é uma reminiscência da lógica contida em Zen in the Art of Archery (Herrigel, 1989). Se deixarmos de visar ao alvo por um tempo, e desenvolvermos primeiro um conhecimento mais fundamental, nosso trabalho de acertar em cheio no alvo será melhor quando finalmente voltarmos nossa atenção para ele.

Argumentos mais diretos contra a teoria podem também ser obtidos daqueles que confiam nos métodos quantitativos. Alguns pesquisadores da avaliação, tais como Thomas Cook, observaram que é mais importante isolar alguns esforços bem-sucedidos de mudança - aqueles que demonstrem resultados positivos consistentes - do que compreender as nuanças causais por detrás de qualquer resultado particular. Da mesma forma, muitos advogados da meta-análise encaram a missão da ciência social como sendo a de uma acumulação de achados empíricos, e não como um ir e vir de paradigmas teóricos (Kuhn, 1970). Eles tendem a ver as publicações de pesquisa como ten-do valor simplesmente pelo fato de servirem como dispositivos de armazenagem para correlações obtidas, não pelo fato de elaborarem um conjunto de idéias teóricas.

Uma série de publicações de pesquisas organizacionais evoluiu para servir a essas discrepantes perspectivas sobre os méritos da teoria. Na ponta mais empírica do espectro estão revistas como o Journal of Applied Psychology e a Personnel Psychology. Esses divulgadores tipicamente apresentam breves revisões da literatura, junto a uma listagem simples de hipóteses. A linha de frente dos artigos de tais revistas é caracteristicamente pequena; as hipóteses são freqüentemente réplicas ou derivações de trabalhos prévios. Atenção maior é dada à descrição dos métodos, às variáveis, às técnicas de análise de dados e aos achados.

 

De acordo com isso, a razão comum para se rejeitar um texto nesses divulgadores é a de que os dados não satisfaziam adequadamente as hipóteses ou havia um defeito fatal no design do estudo. A originalidade das hipóteses e a força dos argumentos teóricos representam uma probabilidade menor de aceitação ou rejeição.

Um divulgador como a Research in Organizacional Behavior está no outro extremo. Os editores da ROB consideram o desenvolvimento teórico sua contribuição primária. Se dados são apresentados, eles são usados para ilustrar, e não para testar, uma teoria (por exemplo, Meyer e Gupta, 1994). A filosofia da ROB não é antagônica à reunião de dados e análise; ela simplesmente relega o papel da pesquisa empírica para revistas de distribuição mais tradicionais.

Na tentativa de abranger o espaço entre o teste de teoria e a construção de teoria estão revistas como ASQ, Academy of Management Journal e Organization Science. Na comunidade de pesquisa organizacional, o ASQ mantém-se talvez como o mais preocupado com questões teóricas, com o objetivo de que os artigos empíricos deveriam também fazer uma contribuição conceitual. Esse papel de ponte é difícil de ser realizado, já que há inevitáveis trade offs entre teoria e pesquisa empírica. Por um lado, o ASQ exige que os autores se envolvam em atos criativos e imaginativos. Por outro lado, espera que esses mesmos autores sejam precisos, sistemáticos e que sigam os procedimentos aceitos para as análises quantitativas e qualitativas. Essas exigências contraditórias somente podem ser apreendidas por meio de frases como "imaginação disciplinada" (Weick, 1989), "descontrole consciencioso", ou "desvio aceito".

Infelizmente, os colaboradores de nossas revistas de pesquisa de campo raramente possuem habilidades para construir teoria e para testar teoria. A maioria dos colaboradores parece ser adepta de uma ou outra parte do ofício; ou são bons teóricos com habilidades empíricas incompletas, ou são bons empiricistas com deficientes habilidades teóricas. Northcraft e Neale (1993) observaram que tais atalhos podem às vezes ser resolvidos por meio da criação de equipes de pesquisas com habilidades complementares. No entanto, suspeitamos que possa não haver bons teóricos o suficiente por aí.

 

Os pesquisadores organizacionais são primariamente treinados nas técnicas de coleta de dados e nas últimas ferramentas analíticas, não nas nuanças da construção teórica. Nossos programas de pós-graduação tendem a passar por cima da construção teórica, talvez porque não seja um processo passo a passo que possa ser ensinado, como o Lisrel ou a event-history analysis. Ler os maiores teóricos e escrever artigos de revisão de literatura passa freqüentemente como treinamento na construção teórica, mesmo que tais tarefas de fato não ensinem alguém a construir argumentos teóricos.

Dado o provável desequilíbrio em nosso campo entre habilidades teóricas e empíricas, o objetivo de oferecer teoria e pesquisa fortes seria uma aventura quixotesca? As revistas deveriam tomar uma decisão - ou se tornarem um lar para dados ou para teorias, mas não ambos? Até aqui, a resposta do ASQ ao dilema acima é uma "educação compensatória". O periódico tem tentado preencher essa lacuna por meio de processos de análise, nos quais as tentativas dos autores de escrever teoria são escrutinados em detalhes por pareceristas e editores. Páginas de apontamentos críticos são encaminhadas aos autores na esperança de "educá-los".

 

O resultado é normalmente um autor que segue respeitosamente as idéias teóricas sugeridas, ou que se torna tão enfurecido que simplesmente manda seu artigo para outra revista. Seguindo o ciclo da revisão, um texto pode terminar com uma teoria forte, mas isso não é o mesmo que dizer que os autores realmente aprenderam a escrever uma teoria melhor. Aprender a escrever uma teoria pode ou não ocorrer, e quando ocorre, é quase sempre um subproduto acidental do sistema.

 

ESTAMOS PEDINDO MUITO?

Neste momento do ensaio somos forçados a perguntar se estamos sendo ingênuos. Talvez existam diferenças e preferências individuais persistentes que expliquem por que uma boa teoria é tão difícil de ser encontrada nos artigos de pesquisa organizacional. Talvez as pessoas que são dirigidas mais pelos dados do que pelas idéias sejam atraídas para se juntarem a um campo empiricamente baseado, como o do comportamento organizacional. Talvez a natureza aplicada do campo atraia tipos práticos, contrários ao nonsense, e não aqueles sonhadores mais excêntricos que poderiam naturalmente ser bons do ponto de vista da busca teórica. Se for esse o caso, então a importância da educação deveria se tornar um desafio ainda mais amplo. Sem uma pressão constante para a construção de teorias, o campo certamente escorregaria para seu lugar natural de repouso na terra árida do empirismo.

O problema com a construção de teorias pode também ser estrutural. As revistas poderiam estar colocando os autores em um double blind. Por um lado, os editores e pareceristas pedem por idéias criativas e interessantes, para haver uma importante contribuição com a teoria organizacional. Por outro lado, os autores são acusados pela aparente má combinação entre sua teoria e os dados. Fornecer uma teoria abrangente, na qual um dado fenômeno seja situado em uma rede de influências interorganizacionais ou culturais, levará normalmente a alegações de que o autor não mensurou todas as variáveis em seu modelo.

Fornecer uma teoria profunda, na qual os mecanismos intervenientes ou os processos são explicitados em detalhes gráficos, pode, da mesma forma, levar a objeções de que somente os antecedentes e as conseqüências do modelo são mensuráveis. Pareceristas tipicamente dirão: "Se uma variável contextual ou processo interveniente é tão importante, por que ela não foi operacionalizada?"

Demandas contraditórias por uma teoria forte e por uma mensuração precisa são freqüentemente satisfeitas apenas por meio de um escrito hipócrita. A teoria é manufaturada em torno de dados. O autor é cuidadoso para evitar mencionar quaisquer variáveis ou processos que poderiam advertir os pareceristas e editores de que alguma coisa está sendo esquecida no artigo. Os processos periféricos e intervenientes são deixados de fora da teoria a fim de que não exponham a lacuna do desenho empírico. Somos culpados por esses crimes de omissão. Temos até mesmo aconselhado nossos estudantes de pósgraduação a manterem porções de suas teorias que não são bem mensuráveis e a excluírem outros dados interessantes que não se relacionariam diretamente com seus argumentos teóricos. O resultado de tais omissões é que a construção da escrita do trabalho se torna uma arte de ajustar conceitos e argumentos em torno do que tem sido mensurado e descoberto. Se amplamente partilhadas, como suspeitamos que sejam, essas práticas significam que nossas publicações têm uma semelhança muito pequena com o que pregam os textos de metodologia, como sendo a seqüência apropriada de construção teórica, desenho, mensuração e análise.

Sendo assim, o que as revistas deveriam fazer para cuidar das dificuldades inerentes de se ter uma teoria e um método fortes em um único artigo de pesquisa? Deveriam esses divulgadores guardar, de modo ainda mais zeloso, a seqüência científica da pesquisa de teste de hipótese, por exemplo, exigindo que uma lista de todas as variáveis mensuradas no estudo, e suas intercorrelações, seja incluída em cada escrito submetido? As revistas deveriam gastar ainda mais tempo e energia nos processos de revisão, esperando educar, e não apenas selecionar, os trabalhos dos membros do campo? Ou as re-vistas poderiam ser mais bem servidas para baixar sua guarda apenas um pouco?

 

ALGUMAS RECOMENDAÇÕES

Quando textos de pesquisas são divididos nas dimensões teoria e método, é fácil ver onde reside a maior parte de nossas contribuições. Os artigos com teoria e método fracos são rotineiramente rejeitados. Seus autores são enviados de volta à estaca zero ou para outra revista. No outro extremo do espectro estão aqueles poucos artigos com uma teoria e um método fortes. São peças excepcionais que podem se tornar "clássicos instantâneos", já que são apressadamente passados entre acadêmicos e discutidos com pontadas de inveja. Há poucas controvérsias nas células superiores e inferiores dessa matriz.

É quando nos voltamos para as células "misturadas" da matriz teoria-método que vemos conflitos de gosto e valor. Já que apenas poucos artigos são considerados fortes em teoria e método, as revistas são forçadas a fazer concessões implícitas sobre essas dimensões para preencher suas páginas. Mesmo quando as revistas podem corajosamente abraçar o objetivo da construção teórica, o processo de análise normalmente funciona de outro jeito. Na prática, é muito mais fácil um conjunto de pareceristas e editores concordarem sobre uma peça empírica cuidadosamente elaborada que possui muito pouca ou nenhuma teoria do que concordarem com um fraco teste de uma nova idéia teórica. O autor desse segundo tipo de trabalho pode esperar receber um con-junto de pareceres afirmando "embora tenham sido propostas algumas interessantes e bem motivadas hipóteses, o autor falhou em...".

As revistas que se especializam no teste de teorias podem confortavelmente tolerar o processo de seleção de textos como este agora se apresenta. Elas podem chegar a um consenso sobre a publicação de um conjunto de artigos que seguem diretrizes metodológicas estritas para testar teorias existentes. O problema é muito maior com periódicos como o ASQ. Ao tentar construir teorias, bem como uma base de dados para a pesquisa organizacional, essas revistas empurram os autores até seus limites, e além deles. Uma dificuldade-chave é que os artigos escolhidos para revisão tendem a ser aqueles com métodos aceitáveis e teoria não desenvolvida. Extrair teoria daqueles que não puderam - ou não poderiam - oferecê-la no início pode ser um processo duro e desagradável.

Nossa recomendação é para se re-equilibrar o processo de seleção entre teoria e método. A inclinação natural das pessoas é exigir mais provas para uma nova e provocativa idéia do que para uma que elas já acreditavam ser verdadeira (Nisbett e Ross, 1980). Por conseguinte, se uma teoria é particularmente interessante, os padrões usados para avaliar quão bem ela é testada ou fundamentada precisam ser afrouxados, não apertados. Precisamos reconhecer que as maiores contribuições podem ser feitas quando os dados são mais ilustrativos do que definitivos.

Também pensamos que periódicos como o ASQ precisam revisar suas normas sobre a ligação entre teoria e dados. Nem tudo o que é discutido na introdução de um trabalho precisa ser operacionalizado na seção de método ou demonstrado em um conjunto de equações de regressão. Se a construção teórica é um objetivo válido, então as revistas deveriam estar dispostas a publicar artigos que de fato sejam mais fortes em termos de teoria do que de método.

 

Os autores deveriam ser recompensados, e não punidos, pelo desenvolvimento de argumentos conceituais fortes que fossem mais a fundo e que se estendessem mais além do que os dados podem justificar. Não estamos advogando por introduções mais longas e divagantes, dissociadas das análises empíricas. Em vez disso, acreditamos que haja espaço para discussões mais nítidas sobre os processos que estão por detrás de um fenômeno e que fundamentam as forças causais no sistema social mais amplo.

De diversas maneiras, nossas revistas já vêm impondo os padrões aqui propostos sobre a pesquisa qualitativa, entendida como oposta à pesquisa quantitativa. O bom senso que prevalece refere-se ao fato de que a pesquisa qualitativa é mais útil para a construção teórica do que para o teste teórico. Raramente os estudos qualitativos são aceitos para publicação quando simplesmente fornecem dados que validam uma teoria existente. As descrições etnográficas, quando não representam também uma fonte de novos conceitos ou idéias, raramente são publicadas. É ainda mais difícil publicar estudos qualitativos que fornecem análises pormenorizadas de um fenômeno específico se os pareceristas não puderem ser convencidos de que tal conhecimento é aplicável a processos sociais mais gerais.

Talvez os padrões usados para julgar artigos qualitativos tenham a desvantagem oposta daqueles usados para artigos quantitativos, com a teoria sendo extremamente enfatizada, ao passo que os dados não o são suficientemente. Autores de estudos qualitativos são freqüentemente interrogados para abandonar a maior parte da descrição das características e eventos, a fim de deixar espaço para um maior desenvolvimento teórico. A descrição que daí resulta pode consistir em algo não muito maior do que uma pequena seqüência de vinhetas ou uma tabela que faz um sumário das citações, ilustrando aqueles conceitos ou hipóteses formulados em um artigo.

 

Essa limitação pode esvaziar o valor de um trabalho. A perda pode ser a rica descrição que Van Maanen (1989) disse ser necessária para os pesquisadores construírem fortes teorias ao longo do tempo. A perda também pode ser a oportunidade para se construir uma teoria cumulativa a partir de eventos pequenos, mas compreensíveis. Weick (1992, p. 177) observou que a maior parte de seu próprio trabalho constitui "conhecimento por anexação", que "ocorre quando uma explicação relativamente plena de uma pequena região é transportada para uma explicação de uma região adjacente". Devemos ser tão cuidadosos para não sobrecarregar os critérios teóricos para os artigos qualitativos como para não subestimar as contribuições teóricas da pesquisa quantitativa.

 

CONCLUSÃO

Começamos este ensaio com a queixa geral de que muitos escritos que analisamos enquanto pareceristas e editores são desprovidos de teoria. Em nossa experiência, os autores parecem se enganar ao pensar que cinco características de um artigo de pesquisa podem ser teoria quando, na verdade, não são. Assim, colocamos e explicamos os cinco sinais sobre o "caminho errado" para os autores. Esperamos que essas diretrizes ajudem os auto-res a evitarem escrever trabalhos que contenham pouca ou nenhuma teoria. No entanto, não somos tão ingênuos a ponto de pensar que esses poucos sinalizadores irão criar uma arrancada de nova teoria na pesquisa organizacional.

 

O problema é mais complexo, e as soluções, mais complicadas. Exploramos diversas razões estruturais para o atual desequilíbrio entre teoria e método na pesquisa organizacional, observando como o problema pode se originar do modo como fazemos funcionar as revistas científicas, bem como da natureza e da educação dos pesquisadores que constroem nosso campo. Nossas conclusões, embora às vezes oblíquas e contraditórias, podem ser lidas como uma petição por um maior equilíbrio na hora de pesar o lado teórico versus o empírico da pesquisa. Defendemos uma maior ênfase teórica na pesquisa quantitativa, acompanhada de uma maior valorização do empirismo dos esforços qualitativos.

Para encerrar, pedimos para que o leitor considere se as evidências fornecidas por pessoas como Freud, Marx ou Darwin seriam satisfeitas pelos padrões empíricos das revistas top de pesquisas organizacionais. O trabalho deles seria rejeitado diretamente, ou lhes seria dada a oportunidade para passarem por um ciclo de revisões? A simples reflexão dessa questão traz à luz o papel essencial do equilíbrio - ou tolerância - na avaliação de pesquisas.

 

Quando as teorias são particularmente interessantes ou importantes, deveria haver uma maior liberdade em termos de apoio empírico. Um pequeno con-junto de entrevistas, um experimento de demonstração, uma pesquisa piloto e uma pequena quantidade de dados de arquivo poderiam ser tudo de que se necessita para mostrar que um processo particular poderia ser verdadeiro. Pesquisas futuras serão, é claro, necessárias para decidir se os enunciados teóricos resistem a um exame minucioso, ou se eles se juntarão à longa lista de teorias que apenas têm o direito de serem verdadeiras.

http://www.fgv.br/rae/artigos/revista-rae-vol-43-num-3-ano-2003-nid-45512/

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